por Jota Mombaça

A questão da descriminalização das “drogas”, embora avance resolutamente no cenário global, ainda é composta por zonas nebulosas, em geral turvadas pela noção absolutamente imatura de que o problema reside materialmente nas próprias drogas e em seus efeitos, e não na teia biopolítica que delas (e de seu uso numa paisagem social) se desdobra. Os discursos conservadores, baseados em seus transcendentes (a moral, os bons costumes, o correto, o melhor para todos), tendem a esperar, como única solução possível, a extinção absoluta do crack, da cocaína, da maconha,… Como erram feio estes! O problema do crack, por exemplo, excede a brita; tem um recorte de raça, de gênero, de classe, dentre tantos outros. A nóia é uma legião de acontecimentos, microfísica vasta lhe compõe. O crack, assim, constitui-se de uma tal maneira que não lhe é intrínseca, pelo contrário: é a sociedade quem o produz e comercia, tanto material quanto imaterialmente. Do mesmo modo, o problema da proibição não se resume à existência de uma lei proibitiva, porque diz respeito a todo um regime de repressão que se confere, também, nas práticas menores, na colisão dos corpos, no tête-à-tête.
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Recentemente, fui a São Luís do Maranhão, num ônibus privado pago com dinheiro federal, acompanhado de uma delegação eminentemente formada por graduandos do curso de história da UFRN, a fim de realizar uma comunicação oral baseada no meu texto “A Pedagogia das Revoluções Fracassadas” e conhecer a cidade. Na volta (à altura de Campo Redondo, já no Rio Grande do Norte), o motorista do ônibus que nos transportava, não sem a conivência da maioria dos estudantes que faziam a viagem, formalizou, à Polícia Rodoviária Federal, uma denúncia quanto à existência de maconheiros no ônibus. Durante a viagem – que começou por volta das 18h do dia 07/04/2012 no campus da UEMA e, com todos os atrasos, terminou em frente ao Via Direta à meia-noite do dia seguinte –, em quase todas as paradas, os maconheiros (eu e mais uma meia-dúzia) desciam para fumar os seus, e, dada a adição dessa atividade às paradas, a viagem era atrasada em 15, 20 minutos. O motorista dizia: “vocês tem 40 minutos para almoçar”, e nós levávamos uma hora. O fato é que esses atrasos foram de tal modo incompreendidos que passamos a ser pressionados pelo motorista e pelos olhares policialescos dos colegas a não nos atrasarmos mais, o que era impossível dada a quantidade de coisas que fazíamos ao parar (comer, fumar, usar o banheiro (tomar banho, escovar os dentes, cagar,…)). Exasperados conosco, o motorista mais o CAHIS e demais fascistóides, decidiram resolver a diferença com polícia.
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Dessa experiência me parece possível depreender algumas invisibilidades que me interessam iluminar.
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Se olharmos com atenção o trânsito de poder que envolve a terceirização de certos serviços por parte da UFRN, será possível notar um nível de disciplinarização bastante problemático. Ao contratar uma empresa para realizar um serviço de viagem, a universidade concede, também, por vias simbólicas, o poder de disciplinar os estudantes ao longo da rota. Sendo que, à distinção de uma empresa privada, uma universidade tende a constituir-se a partir da expressão das diferenças, com base na problematização da realidade e no debate aberto, acima de qualquer moral (norma fixa). O motorista, no entanto, afirmava veementemente: “vocês não podem atrasar, porque a empresa determina um horário de chegada”; “somente vocês não se adequaram ao tempo determinado”; e para ameaçar: “a reitoria nos deu permissão para anotar seus nomes, caso haja algum problema”. Ora, que imposições irredutíveis e ameaças eufêmicas são estas?
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Tem-se, no discurso senso-comum, uma noção absolutamente equivocada de experiência democrática, como a submissão das diferenças pelo respeito à maioria. Mas que é a maioria senão um comportamente hegemônico, um modo-de-existência que tende à igualdade pasmacenta da massa? De acordo com essa idéia torta, que eu prefiro chamar de Democratura, a diferença (minoria) deveria sempre recuar diante do desejo expresso pela maioria, deixando-se disciplinar por aquilo que aparentemente é o melhor para todos. O que as democraturas não cessam de produzir é a igualdade policial – em que todos nós somos igualmente xerifes da transgressão um do outro em nome da moral democraticamente constituída –, a submissão das diferenças a um desejo hegemônico e, em último nível, o próprio comportamento de massa. Mas é cada vez mais urgente que criemos linhas-de-fuga para escapar o dualismo exasperante que insiste em opor os desejos (e modos-de-existência) singulares à produção do comum. Decerto que, nas relações sociais, além da diferença, há um nível necessário de produção do comum. Para constituir-se, o homem sempre precisará do outro, encontrando no mundo que lhe envolve a justificação da vida tal qual ela se apresenta. Mas este nível comum, por sua vez, não pode sobrepujar a diferença, o trânsito de singularizações sem o qual a realidade pára. Um comportamento de multidão, aquele que retira da colisão entre singularidades a carne do comum, ajuda a conceber um tipo dinâmico de sociedade, ao mesmo tempo produzida e produtiva, uma construção inacabada.
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De modo algum uma disciplina baseada na rigidez de regras pode sustentar a totalidade de um grupo, por menor que este seja. Éramos 30 e poucos, maconheiros somente 7 ou 8, e uma norma inadequada sobretudo a estes. “Seria o caso de esmagá-los”, devem ter pensado. Demandas excepcionais, casos singulares, por que interditá-los sempre?
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Agora se me ocorre pensar retirando o foco do motorista (representante da empresa/disciplinadora) e lançando-o para a parte hegemônica da delegação com quem eu viajava, que compreende o Centro Acadêmico (instituição asquerosa) do curso de História (CAHIS-UFRN) e mais alguns agregados, é aberrante constatar um sentido ainda mais perverso da disciplina: ela produz corpo e engendra ação. Os olhares de esguelha, silenciosos mas atentos, famintos por algo o que policiar; o cochicho ardiloso e covarde; a conivência sorridente com a denúncia que nos pôs a mim e a um amigo diante da PRF. Serão corpos dóceis, cuja máxima violência seja simplesmente a capacidade de tramar contra o outro? O curioso foi que quando estávamos assinando nossos TCOs, eles finalmente quiseram votar a primeira decisão coletiva da viagem inteira: ir embora e nos deixar por lá, sim ou não. Todos votariam, exceto, é claro, eu e meu referido amigo, que éramos agora casos de polícia. Mas o motorista estava empenhado, raivoso, segurava um papel no qual estava escrita uma denúncia – o ônibus não sairia.
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Como lobos nunca se dão mal em noite de lua cheia, tivemos a sorte de sermos autuados por policiais “limpeza”. Além de termos sido tratados com gentileza, pudemos expressar-nos com muita liberdade e franqueza, o que nos fez criar certa relação de camaradagem com os ôme. Inclusive, um deles, quando lhe respondi negativamente se eu já havia tido algum contato com a polícia, disse-me: “ainda bem que a primeira vez foi com a gente!” Eram policiais inteligentes e reconheciam o óbvio absurdo da cena: dois estudantes maconheiros, calmos e conversadores, de papo antenado, levando na leveza aquela situação; um motorista bufento, irritadiço; uma platéia de bonecos intranquilos; e um punhado de maconha. Engraçado que a repressão aos cannabistas tenha, nesse momento, se deslocado de maneira tão emblemática da figura dos policiais para a de estudantes de história e um motorista contratado pela UFRN. A polícia, ao que parece, se corporifica: dentro de cada um de nós, um xerife, um fascistinha interior. Não alimente o seu!
Publicado em 22/04/2012
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